Textos e Publicações de Carmen Cerqueira Cesar
"Como os sintomas dos filhos podem estar expressando uma resposta à demanda dos pais”
Uma criança é trazida para análise pelos pais com uma queixa. A queixa parental encobre com freqüência sintomas mais sérios, ou pelo menos diferentes daqueles que motivaram a consulta. A queixa é geralmente dos pais/da escola, o sintoma é da criança, uma questão que ela vai formular em análise. O sintoma causa um sofrimento ao sujeito, é um incômodo vital.

Por exemplo: pais separados pedem uma consulta porque estão preocupados com uma enurese freqüente no filho de 08 anos. Sentem vergonha de autorizá-lo a dormir na casa de amigos, ficam em dúvida quanto a mandá-lo para um acampamento escolar. Perguntado ao menino se gostaria de saber sobre sua enurese, começa a dizer que quer entender porque seus pais se separaram. Sonha constantemente com a volta do pai para casa, e, ao acordar e perceber que não é verdade, fica muito triste e sem vontade de ir para a escola. Resiste a dormir para não sofrer a tristeza do despertar. Enfim, o fio inicial que nos conduzirá será a escuta do luto difícil da separação do casal parental e não a enurese. Quem determina aquilo que é e aquilo que não é sintomático é o discurso do sujeito, seus pontos de sofrimento.

A matéria-prima é a palavra, em suas diferentes manifestações fenomênicas, palavra esta que vem pela via do jogo, do desenho, ou encarnado num sintoma corporal. Ex: "Mamãe não pára de me dizer coisas intragáveis ... " fala uma menina de 9 anos, com vômitos recorrentes.

Por exemplo, se uma criança apresenta como sintoma um bloqueio escolar, se entrarmos pelo lado de uma reeducação corre-se o risco de favorecer as defesas da criança. A Psicanálise afirma que o sintoma é uma linguagem, uma mensagem que nos cabe decifrar. Ouvindo o discurso dos pais e da criança, podemos perceber qual o lugar que esta criança ocupa no seio da família, assim como os outros membros.

O sintoma é a expressão de algo que foi recalcado, que não foi dito. É a ponta do iceberg. A criança não consegue falar sobre o que a angustia, não faz simbolização, então aí se faz o sintoma, a atuação, aí empaca no seu desenvolvimento. Para ela o sintoma é seu grito de alarme, seu pedido de ajuda. A criança vai se exprimir nos símbolos do sintoma. É decifrando o sentido incluído no sintoma que permitimos a uma criança se exprimir numa outra linguagem, que não a do corpo (distúrbios físicos), a do atraso escolar (distúrbios escolares), a da agressividade e violência (distúrbios de comportamento).

Não é tanto o confronto da criança com uma verdade penosa que é traumatizante, mas o seu confronto com a "mentira" do adulto. No seu sintoma, é muitas vezes essa "mentira "que ela expressa, e o que lhe faz mal não é tanto a situação real, quanto aquilo que não foi claramente verbalizado. É o não-dito que aqui assume importância, se transformando em sintoma. Portanto, analisando o sintoma, caminhamos para além da queixa, e abrimos espaço para um trabalho analítico para ver qual o significado que está ali e liberar a criança com seu Desejo.

Lacan disse a respeito do sintoma: "O sintoma se desfaz completamente numa análise da linguagem, porque ele mesmo está estruturado como uma linguagem, porque é uma linguagem cuja palavra deve ser liberada". Exemplos. M. – chamada pela mãe de "menina de rua, a que vive na rua" e que perde na mesma todos os dons que tem; A. - "detetive" a serviço da demanda materna, no seu ciúmes incontrolável.

No momento em que esse processo é liberado e o não-dito entra na simbolização/cadeia significante, o sintoma desaparece. É como se a palavra "desancorasse "o sujeito. O sintoma da criança se encontra no lugar desde o qual pode responder ao que há de sintomático na estrutura familiar, o recalcado, o não-dito, os fantasmas parentais (suas neuroses). Isto é inconsciente. Qualquer tentativa de ajuda e compreensão da criança e seus pais passa através da escuta atenta do discurso e suas falhas, onde a tarefa de constituição de uma subjetividade fica interrompida.

"O papel da Psicanálise e sua especificidade"

Em Psicanálise infantil, por ocasião das primeiras consultas, estamos submetidos ao pedido dos pais, que pode ser urgente, cheio de culpa e angústia.

O analista não entra aí como pedagogo ou médico psiquiatra, com o risco de deixar escapar o que é essencial- a apreensão psicanalítica do caso, ou seja, o lugar que essa criança ocupa no discurso dos pais ( lugar da incompetência, da inteligência, daquele que veio para realizar os sonhos que não realizaram). O sintoma da criança tem a ver com a sua alienação no discurso do Outro, com a sua tentativa de responder à suposta demanda desse Outro, fazendo "um" com ele (ou respondendo pelo avesso, pela via da agressividade ou rebeldia - o que é extremamente ineficiente, pois também não marca a separação, nem abre o caminho do Desejo). Fazer "um " com o outro é da ordem do impossível.

É neste sentido que a Psicanálise é libertadora. E ela vai na direção oposta que vão certos discursos psicológicos ou pedagógicos que visam a adaptação. A função da Psicanálise não é de uma reeducação emocional, a qual acabaria por perpetuar o sintoma da criança, fortalecendo as suas defesas, mas de ajudá-la a se colocar no seu devido lugar (A. era escudo da mãe frente ao pai, usado por ela de uma forma “ilegal”, incestuosa) lhe restituindo o seu direito à palavra (esse menino só podia repetir o discurso materno) e ao acesso ao seu próprio Desejo.

Escutamos a história e o relato do paciente para poder determinar os acontecimentos significantes, onde se tece uma estrutura desejante, não para incluir o sujeito em séries estratificadas de dados em relação à sua inteligência, emoções ou afetos (testes, jargões, entre outros).

Para a criança, a sua própria história, que a Psicanálise lhe permite recontar, a seu modo, não é uma história de mocinhos e bandidos, de vilões ou heróis, mas uma história que terá a sua própria versão.

“A criança tem um lugar que pré-existe ao seu nascimento”

A criança ocupa um lugar no discurso dos pais, que pré-existe ao seu nascimento. Ao escutarmos os pais, podemos perceber quais os significantes que existem nessa relação e qual significação que esta criança tem para eles. Desta forma, escutando os três, podemos inseri-la numa ordem simbólica (exemplo A. filho de uma suposta “elite” intelectual, ele estava no melhor colégio, o melhor isso aquilo... ele era super... e tinha vários preconceitos contra as pessoas, nordestinos, negros... aí os pais se assustaram!) A ordem simbólica é anterior ao surgimento de um sujeito humano individual; é trans-individual. (ex. R. resolve ter um filho “para ser respeitada pela família do marido”, era a segunda esposa ... )

Antes do nascimento de uma criança, seus pais elaboraram uma trama de palavras em tomo do lugar que lhe é reservado. Falam dela, sonham com ela, escolhem o seu nome, inscrevem-na numa história onde o que conta é o lugar do desejo que a espera e a qualidade do desejo dos pais entre si. Há um lugar reservado para ela no discurso familiar, e na ordem das gerações onde ela vem a se inscrever. Apesar de, no entanto, não ter acesso a uma palavra que lhe seja própria, é falada por outros, marcada simbolicamente (ex. C.I. que apresentava dificuldades escolares, tinha o nome do tio, que ia muito mal na escola, a mãe ajudava esse irmão, como fazia agora com o filho).

A língua se encontra sustentada pelos sujeitos falantes, mas como estrutura constituída precede a um falante em particular.

O lugar que é dado à criança pela linguagem, ela não tem escapatória, porque é aí que a criança surge como sujeito.

Não se trata de que o sujeito incorpore a linguagem, como o sustenta a Psicologia Evolutiva. Esta simplesmente registra como o ser humano aprende a falar, mas nada pode fazer ou dizer acerca do porque alguns seres humanos não falam (autismo) ou falam sem se comunicar ( esquizofrenia).

Trata-se, isto sim, de que o sujeito é efeito da linguagem que pré-existe a ele, e que ele é admitido na linguagem pelo preço de se fazer representar como mais um significante. (exs. “Gracinha, Bonequinha, Encrenca,Estrupício, Princesa...” )

“A Função Materna e a alienação no discurso do Outro”

No início da vida do bebê, a relação é muito intensa e praticamente exclusiva com a mãe. Para o bebê não existe diferenciação entre o seu corpo e o corpo materno, que lhe supre todas as necessidades físicas e emocionais. Esta é uma relação primitiva, simbiótica e necessária. Não há diferenciação Eu-Outro.

"... É dessa ordem a posição inicial da criança como objeto único do desejo materno, da Lei arbitrária e onipotente do seu desejo (materno), ao qual está submetida passivamente."

No início, antes dos seis meses, há uma representação parcial e difusa do corpo, que corresponde ao registro da pura informação biológica ou fisiológica, que também é parcial - ex. uma dorzinha de dentes, um incômodo postural, as sensações de fome e frio, etc. A essa vivência psíquica Lacan chama de "fantasia do corpo fragmentado".

Lacan chamou de “Fase do Espelho” o período seguinte, que vai dos 6 meses a 1 ano e meio aproximadamente, a partir da identificação com a imagem do semelhante como forma total e pela experiência concreta em que a criança percebe a sua própria imagem num espelho. Este é o momento do esboço do que há de ser o ego. À experiência anterior de fragmentação sucede a unificação imaginária do corpo. No entanto, não há ainda integração do esquema corporal. O que há é a imagem e esta dá origem ao Eu Ideal. A criança se identifica ao Desejo materno, responde ao que supõe ser sua demanda. Nesse momento esse é o seu existir, nessa alienação, e isto é, neste momento, necessário, pois funda o Narcisismo Primário (a mãe o deseja comendo, sorrindo ... )

Portanto, esse Eu que se constitui, não é o Sujeito do Inconsciente, ele é a imagem que se tem de si próprio e não o lugar da verdade do sujeito.

O Eu vem antes que a criança comece a falar ( 6 meses a 18 meses), apesar dela já estar na linguagem, e o Eu é uma condição para isso acontecer (com autistas isto não ocorre, não há sujeito falante).

Como vimos, o outro no qual a criança se aliena é o outro humano, geralmente a mãe, cuja presença enquanto unidade, fascinante na sua completude, captura-o visualmente. Não se trata simplesmente de ver-se no espelho que é a mãe, mas que este processo está também sustentado pelo olhar da mãe (que lhe dá a matriz simbólica ao portar em si mesma a expressão de seu Desejo). Diferente da mãe da necessidade, que não olha, que não investe libidinalmente com amor. A mãe desejante atribui um sentido às manifestações da criança, seu choro, seu grito... (é dorzinha de barriga, é o dentinho, está com soninho...)

O bebê fica com essa imagem de completude, mas ela é ilusória. (nessa fase o bebê ainda não fala e nem anda). Ele e dependente.

Esta Fase do Espelho se divide em 3 momentos:

1) A criança se confunde com o outro. Se o outro cai, ela chora. É o transitivismo infantil - não há diferenciação Eu-outro. "Tenho medo do cachorro. Fecho os olhos para que ele não me veja."

2) A criança percebe a diferença no espelho entre a imagem do outro e a sua e a realidade do outro e a sua.

3) A criança reconhece essa imagem no espelho como sendo sua - unidade imaginária do corpo - pelo reconhecimento da imagem corporal.

Essa matriz impede que a criança caia na experiência de fragmentação angustiante das representações proprioceptivas iniciais, tão típicas dos fenômenos psicóticos da infância. É também extremamente importante porque sua conquista permitirá que reconheça a diferença entre interior e exterior, dentro-fora, o que pertence ao Eu e o que não pertence (diferente da paranóia).

Isto nos leva a pensar criticamente as correntes psicoterápicas que se fundamentam no fortalecimento do Ego: qual seria o sentido de fortalecer uma instância que implica o desconhecimento de uma alienação que o funda tornando-o alheio de si próprio? Uma instância que, na sua origem, consistiu em considerar a imagem do semelhante como se fosse ele mesmo, se esse Eu a ser fortalecido não é outra coisa mais que um outro? Fortalecer o Eu não é mais que reforçar a alienação inicial, na qual ele se constitui.

Quando falávamos da captura da criança na imagem da mãe, também dissemos que ela "olha-o", entendendo-se por isso o desejo materno que circula junto com os primeiros cuidados, desejo articulado na ordem simbólica na qual ela se constituiu como sujeito (a neurose da mãe vai moldar a do filho). Ela o desejará sorridente, comendo bastante, parecido com seu pai, ou com outro bebê recentemente perdido, etc.

A criança, no início, está a tal ponto subordinada ao discurso do Outro/discurso materno, que antes de poder chamar sua própria imagem corporal de Eu, ou de se nomear com o seu nome próprio, ela chamará a si mesma de "o nenê "- "O nenê quer água..." Esta é a designação que vem desde o lugar do Outro - lugar das palavras - e que repetirá especularmente. E o Inconsciente vai se constituindo.

Então, temos um sujeitinho de carne e osso, com seu corpinho, sua imagem corporal, seu Eu, e existe também um sistema simbólico que veio via linguagem, via Desejo da mãe, que alienou o sujeito, mas que o estruturou também.

Nesta Fase do Espelho, a criança está numa relação de indistinção quase fusional com a mãe. Isto porque "parece" que o bebê complementa a mãe, a sua falta. Ela está identificada ao que supõe faltar à mãe. "Parece" que o desejo da mãe só se direciona a ela. E o desejo da criança está submetido ao desejo materno. Como vimos, a alienação da criança é total.

"A Função Paterna e a criança posicionada em relação ao seu próprio Desejo"

Só que a criança, num determinado momento vai perceber a existência do pai, para quem o desejo materno também se direciona. Representa uma ferida no Narcisismo da criança e é a chamada "Castração". O pai faz simbolicamente uma separação entre mãe / bebê e esta operação se chama "Função Paterna". Ele priva a mãe do objeto fálico do seu desejo, frustra-a e interdita à criança a satisfação do impulso (Édipo). Barra esse duplo gozo.

É super importante que esta Função Paterna opere para que a criança se estruture psiquicamente, aceda ao Simbólico. Porque o pai age como o "representante da Lei", aquele que separa a criança da mãe, e permite que a criança se desenvolva. Esta Lei é a Lei contra o Incesto, ou seja, a lei que provoca a separação mãe/ criança e faz aparecer a falta, que sempre esteve aí, porque é da vida. A falta abre um espaço de discriminação entre Eu-outro e mostra a não completude, o impossível. Aí é então possível o Desejo (ex. burrinho com a cenoura pendurada na frente não vai parar de andar).

A criança, desta forma, é capaz de substituir o significante do Desejo da mãe pelo significante do Nome-do-Pai. Isto traz conseqüências importantíssimas, como o aprendizado da linguagem (falada e escrita), a vida em sociedade, e principalmente a questão da identificação sexual. A gente nasce com o sexo biológico, mas se torna homem ou mulher. Também se fazem outras identificações, marquinhas, tracinhos, que vão constituir o Ideal de Ego e o Superego. Se eu já não sou, então quero ser... quero ter...(Ideal de Eu) e tomo conta de mim (Superego).

Se essa função não opera, podemos ter sujeitos perversos (psicopatas) ou psicóticos. Mas para esta função operar a mãe precisa validar a palavra do pai, reconhecendo sua Lei como aquela que mediatiza seu próprio Desejo, ou seja, ela também é castrada, está submetida à Lei Simbólica, como também o pai.

No entanto, não é necessário o pai encarnado num homem real. Ele pode estar longe ou morto, mas operar separando.

Conclusões

Se este processo não se dá, ou se dá de forma defeituosa, a criança acaba comprometida, empacada, fazendo sintoma. Pode acontecer da criança não conseguir se separar do discurso materno, ou de quem sustentar esta função, por uma falha qualquer na incidência da função paterna (o extremo disto está nas psicoses.De qualquer forma, seja na neurose, na perversão ou na psicose, o que há é uma falha do sujeito no registro simbólico. A criança está alienada de seu desejo, e aí não pode estudar, brincar, fazer esporte, ter convívio social, ou seja lá o que for (ex. A. sintoma de agressividade, uma forma de se separar do outro/mãe, de se diferenciar). A alienação é no discurso do Outro e mantém a relação arcaica com a mãe. A criança não pode contar até 3, ou seja, incluir o pai na triangulação edípica, o que lhe possibilitaria "a vida".

A mãe precisa poder suportar o luto da separação, para poder permitir que esta criança exista independente dela.

A Psicanálise intervém, quando necessário, no lugar de um terceiro, fazendo referência à Lei, interditando o gozo e permitindo à criança a simbolização deste processo. Assim, a criança se coloca numa filiação.

A criança então entra na Latência, recalca esta cena, constrói o seu fantasma e a sexualidade virá aflorar novamente com tudo na Adolescência, com a reativação do Complexo de Édipo. Porém, agora ela deverá ser direcionada para outros objetos de amor, fora da família, para o mundo, para a sociedade.