Textos e Publicações de Carmen Cerqueira Cesar
O MAL ESTAR NA CONTEMPORANEIDADE
"... Por conseguinte, é bastante concebível que tampouco o sentimento de culpa produzido pela civilização seja percebido como tal, e em grande parte permaneça inconsciente, ou apareça como uma espécie de mal-estar, uma insatisfação, para a qual as pessoas buscam outras motivações."

Freud, Sigmund - O mal-estar na civilização, Edição Standard das Obras Completas de S. Freud, vol. XXI - pág.160, Imago Editora, Rio de Janeiro, 1974.
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Se dissermos que o sujeito contemporâneo pode estar alienado no discurso do capitalismo, que suas necessidades são determinadas pelo mercado, então podemos supor que ele abriu mão de sua subjetividade para ocupar um lugar de objeto, de onde responde às demandas da cultura, submetido que está aos imperativos do gozo.

Carentes de referências simbólicas identificatórias, muitos indivíduos elegem os símbolos do capitalismo como objetivos a serem perseguidos, frequentemente com muito ardor, pelos quais acabam pagando um preço altíssimo, pois eles realmente acreditam que "é assim que tem que ser". Parece ser uma questão de sobrevivência psíquica.

Há uma meta a ser alcançada, que tangencia os conceitos de perfeição e felicidade absoluta. Chega a ser ingênuo e pueril, mas sobretudo melancólico, pois sabemos que a vida real é regida pela falta, pela imperfeição. E é aí que mora a graça.

A alienação dos sujeitos encontra apoio no sistema: há que se seguir o roteiro. Só que mais cedo ou mais tarde, e inevitavelmente, o mal-estar se manifesta, seja nos indivíduos, seja no social. Não só o sujeito faz sintoma, mas também a civilização.

A civilização da qual falava Freud em 1929-1930 era uma sociedade diferente da nossa. Naquela sociedade patriarcal se tratava de um mal-estar causado, entre outras coisas, pela repressão da sexualidade e agressividade, em prol dos ideais da civilização.

Na sociedade contemporânea de massas, onde o objeto de desejo é confundido com objeto de consumo, podemos perceber uma constante insatisfação. Por mais que se consuma, nunca se está satisfeito. O que se deseja é sempre outra coisa.

Numa busca sem fim e exaustiva, os sujeitos adentram o campo dos impossíveis, onde os limites não estão colocados. Uma sucessão de objetos são colocados no lugar onde emerge a angústia. E o que se vê, a olho nu, são os sintomas, que tentam falar, à sua maneira, do sofrimento humano.