Textos e Publicações de Carmen Cerqueira Cesar
As novas formas de adoecer na contemporaneidade
Os iluministas (século XVIII) acreditavam que os avanços no campo da ciência, da tecnologia e produtividade trariam somente benefícios para a vida da sociedade, inclusive atendendo aos anseios de felicidade, ao bem-estar subjetivo e a realização existencial dos homens. A razão daria conta de tudo. Mas não foi bem assim.
Freud, em o Mal-estar na Civilização (1930) dizia que o homem civilizado renunciou a seus instintos e trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança. Então, será que a civilização entristece o animal humano? Na verdade, acho que poderíamos dizer que cada época o beneficia e o entristece de formas diferentes.

Segundo Julia Kristeva, em "As novas doenças da alma", observamos, sem dúvida nenhuma, que a cultura contemporânea tende a produzir alienação e objetificação dos sujeitos, que ficam esvaziados de seus ideais e referenciais simbólicos e valores. Pois a eles foram oferecidas soluções imaginárias, que não resolvem suas questões subjetivas, como a sua própria identidade. E com estes parcos recursos, eles criaram bases de sustentação frágeis, uma identidade precária e extremamente vulnerável. Habitante de um espaço e um tempo retalhados e acelerados, tem, com frequência dificuldade de reconhecer em si mesmo uma fisionomia.

Segundo a autora, o homem moderno está perdendo a sua alma. Mas não sabe disso, pois é precisamente o aparelho psíquico que registra as representações e seus valores significantes para o sujeito que está avariado.

A experiência cotidiana parece demonstrar uma espetacular redução da vida interior. Quem hoje em dia ainda tem alma? Pressionados pelo estresse, impacientes por ganhar e gastar, por desfrutar e morrer, os homens e mulheres de hoje economizam essa representação de sua experiência a que chamamos vida psíquica.

Não se dispõe nem do tempo nem do espaço necessários para constituir uma alma. A simples suspeita de tal preocupação parece ridícula, deslocada. O homem moderno é um narcisista. O sofrimento o prende ao corpo, ele somatiza.

Parecem muito bem adaptados (bem-sucedidos) à sociedade tal qual ela é, mas em número bastante grande são sujeitos imaturos, narcisistas, individualistas e superficiais, que repetem discursos prontos. Privado de seu próprio relato, seu desejo se anula.

Que doenças são produzidas neste caldo contemporâneo, em que fervem globalização, sociedade de massas e consumo, tecnostresse e nossa acelerada relação com o tempo? Como e porque as pessoas adoecem?

Atualmente o que observamos nas várias modalidades do adoecer é um transbordamento, um COLOCAR EM ATO ou no próprio corpo, algo que não pode se expressar pelas palavras, algo que não encontra caminhos para a simbolização. A impossibilidade de simbolização é o principal problema da nossa cultura hoje.

E acrescenta a autora: As pessoas adoecem porque o trajeto dos tais super-homens/mulheres está semeado de ciladas. Dificuldades relacionais e sexuais, sintomas somáticos, impossibilidade de expressar-se e mal-estar generalizado pela sensação de uma vida a certa altura sentida como “artificial”, “vazia” ou “robotizada”.

Hoje os psiquiatras e analistas, navegando pela imensa lista de categorias nosográficas atuais, têm que dar conta dos “narcisismos” feridos, das “falsas personalidades”, dos “estados-limite”, dos “psicossomáticos”.

Em que pese às diferenças dessas novas sintomatologias, há, unindo-as, um denominador comum: a dificuldade de representar. Quer tome a forma do mutismo psíquico, quer experimente diversos sinais sentidos como “vazios” ou “artificiais”, essa carência da representação psíquica entrava a vida sensorial, sexual, intelectual, e pode prejudicar o próprio funcionamento biológico. Pede-se então ao psicanalista, sob formas disfarçadas, que restaure a vida psíquica para permitir ao corpo falante uma vida melhor.

As novas doenças da alma são dificuldades ou incapacidades de representação psíquica que chegam até a matar o espaço psíquico.

Cabe a nós analistas ajudar os pacientes nesse processo de simbolização. Por nossa possibilidade de entender a lógica dos afetos emparedados e das identificações bloqueadas, permitimos ao sofrimento sair do seu porão. E a linguagem se revitalize e se torne compreensível.

Eles pedem ajuda por não conseguirem mais se satisfazer e se sustentar na miséria narcísica que acompanha a crise moderna dos valores que parece opor-se à busca de si mesmo. Sendo assim, a psicanálise se situa a contracorrente desse conforto moderno que assinala o fim, não da história, mas da possibilidade de falar uma história. A psicanálise vai ter que lidar com esse retraimento narcísico e esse declínio do desejo de saber.

Ela representa, assim como outras formas de busca interior, uma forma de resgate, de preservação da vida, pois a vida do ser falante desperta. Freud nos abriu a possibilidade de um refúgio contra a sociedade do espetáculo e do consumo.

Há que se ter equilíbrio, medida, limite. Bom senso. Segundo Nuccio Ordine, em "A utilidade do inútil" dói ver os seres humanos, que ignoram a desertificação crescente que sufoca o espírito, consagrarem-se exclusivamente a acumular dinheiro e poder... precisamos do inútil como precisamos das funções vitais essenciais para viver. A poesia, a necessidade de imaginar e de criar... é aí que podemos encontrar o estímulo para pensar um mundo melhor, para cultivar a utopia de poder atenuar senão eliminar as injustiças que se propagam e as desigualdades que pesam (ou deveriam pesar) como uma pedra em nossa consciência.

A Psicanálise poderia ser um dos raros lugares, preservados, de mudança e de surpresa, isto é: de vida. E essa modificação é possível.

Bibliografia:
Kristeva, Julia - "As novas doenças da alma", Ed. Rocco, Rio de Janeiro, 2002
Ordine, Nuccio - "A utilidade do inútil, um manifesto", Zahar Ed., Rio de Janeiro, 2016