Textos e Publicações de Carmen Cerqueira Cesar
Os desafios de viver no mundo contemporâneo globalizado. As novas formas de adoecer.
Nascemos e vivemos mergulhados numa dada Cultura. A Cultura produz discursos e um sistema de crenças e valores, que incorporamos e reproduzimos, na maioria das vezes sem perceber e questionar, de forma automática. Todos nós sujeitos estamos inscritos de uma forma específica, num determinado momento histórico, que tem suas características próprias e que nos dá um lugar e nos define.

O adoecer segue determinados padrões dependendo do tempo e espaço. As pessoas adoecem por fatores fisiológicos, genéticos, hereditários, dos ciclos da vida, e pelos fatores ambientais, que são os sociais e culturais. As formas como as doenças psíquicas se manifestam também variam nos vários contextos.

O cenário atual
Nestes últimos 50 anos muitas mudanças têm ocorrido e com grande velocidade.

Globalização

Graças aos avanços tecnológicos impressionantes das últimas décadas e ao processo de globalização a rede de conexões da Aldeia Global deixou as distâncias cada vez mais curtas e as trocas muito mais rápidas e eficientes.
É um fenômeno amplo e profundo que afeta os quatro cantos do planeta e se dá em todos os âmbitos, político, econômico, social e cultural. A globalização também provocou profundas transformações na vida dos sujeitos individualmente.

Segundo Thomas L. Friedman, em O Mundo é plano, uma breve história do Século XXI, 2005, a globalização tornou o mundo plano. Hoje profissionais dos quatro cantos do mundo podem trabalhar juntos, fazer reuniões, se comunicar, a partir de seus escritórios ou mesmo home office. Grandes empresas podem estar em vários pontos do globo como se estivessem no mesmo quarteirão. Hoje elas terceirizam serviços, como uma grande empresa americana pode ter um call-center na Índia e uma fábrica na China.

Os saltos de oportunidades e produtividade são imensos para os países, empresas e indivíduos capazes de absorver as novas ferramentas tecnológicas. E está em curso uma fase em que todos, mais que nunca antes na história mundial, terão acesso a essas ferramentas.

Praticamente tudo pode ser digitalizado ou virtualizado. O acesso à informação é livre e imensurável. A quantidade de conexões e a comunicação é impressionante. Estamos vivendo uma verdadeira revolução da informação e da conectividade e cada vez mais nos abrindo para a nova era do conhecimento, que será cada vez mais valorizado.

Com certeza este representa um desses momentos-chave na História Humana (como foi a Revolução Industrial ou a introdução da imprensa por Gutenberg). Mas por estarmos inseridos nele, não conseguimos enxergar ainda toda a extensão das vastas mudanças. Diferentemente das revoluções anteriores que ocorreram gradualmente, o atual achatamento do mundo se caracteriza pela rapidez e amplitude.

Crises e revoluções podem ser ao mesmo tempo positivas por representarem oportunidades, mas também podem ser desestruturantes, com rupturas às vezes dolorosas. Os sujeitos precisam de tempo para absorver as mudanças e criar novas estruturas.

A nova economia

A globalização provocou mudanças profundas na economia. Desde os anos 90, ondas de demissões levaram os funcionários remanescentes ao enfrentamento de uma verdadeira maratona de trabalho, quando assumiram, mesmo a contragosto, uma sobrecarga para compensar os demitidos. Temendo o desemprego, esses trabalhadores, muitas vezes insatisfeitos e estressados, agarraram seus postos com unhas e dentes, em meio a um cenário de competitividade acirrada, com menor número de vagas e de oportunidades disponíveis.

Panorama político
As socialdemocracias européias e americana tiveram que lidar, nos últimos anos, com ondas migratórias provocadas pelas guerras, com o aumento da violência e do terrorismo, que tornaram as sociedades e os indivíduos mais amedrontados e consequentemente mais restritos em sua liberdade. Houve um declínio das ideologias e uma certa alienação política.

Novas formas de organização social

Do ponto de vista social, sentimos profundas modificações nas estruturas familiares, com famílias compostas, decompostas ou recompostas, das formas mais variadas. Assistimos à fragilização da figura paterna, da autoridade e da Lei. Os papéis sexuais e de gênero que já vinham se modificando, hoje não são nada rígidos, pelo contrário.

A evolução da família moderna comporta a ambiguidade dos papéis sexuais e dos papéis parentais, a flexibilização das interdições religiosas e morais estão entre os fatores que não mais estruturam os sujeitos em torno de uma posição firme da interdição ou da lei. As fronteiras entre as diferenças de sexo ou de identidade, de realidade e fantasia, de ato e de discursos, etc. são facilmente atravessadas, sem que se possa falar de perversão nem de “borderline”, ao menos pelo fato de que essas “estruturas abertas” se encontram, de saída, em eco ante a fluidez ou a inconsistência da sociedade da mídia.

O mal-estar na cultura

As aceleradas mudanças geraram nos indivíduos insegurança, sensação de solidão e um profundo sentimento de desamparo. Vamos falar do mal-estar na Cultura.

A sociedade de consumo e seus ideais

A demanda da cultura contemporânea globalizada é a da completude, da realização, da excelente performance. Nos ideais que circulam via esse discurso, nada pode faltar. Valores idealizados, incutidos em nós nos dizem o tempo todo que temos que ser bons em tudo. A intensificação do discurso capitalista da cultura contemporânea fez com que passássemos a viver submetidos a esses imperativos: de consumo, da máxima eficiência, produtividade e lucratividade.

Fica parecendo que tudo é possível, e que se falharmos em alguma área, o problema está em nós. E nos sentimos imensamente culpados, pela imensa cobrança de ideais impossíveis. A exigência do sucesso a qualquer preço gera stress e um profundo sentimento de insuficiência porque sempre se estará aquém do esperado.

Nas sociedades capitalistas parece que o grau de felicidade vem sendo medido pela capacidade de consumo de cada um. Confunde-se objeto de desejo com objeto de consumo.

Só que esse imaginário da felicidade não sustenta o sujeito, é a supremacia do ter sobre o ser, pois o sujeito perde seus referenciais, se desvincula de seus afetos e sua existência perde os sentidos possíveis. Onde ele acha que está ganhando, com certeza está perdendo. Através dos sintomas, do seu adoecer ele tenta se expressar. Os sintomas são um pedido de socorro e pedem para serem decifrados.

Nunca se ouviu falar tanto em estresse, depressão, transtorno bipolar, síndrome do pânico, transtorno obsessivo-compulsivo, t.o.c. e compulsões, fobias, distúrbios de alimentação como, anorexia, bulimia, obesidade, uso abusivo de drogas e alcoolismo, entre outras síndromes e transtornos, como ultimamente.

A Neuroquímica

Para “curar” esse mal-estar, o tempo todo objetos e serviços são oferecidos, prometendo consertar o imperfeito, curar a dor, completar a falta, numa tentativa de encobrir o vazio existencial que acompanha essa situação.

A neuroquímica veio para o bem e é preciso critério para utilizá-la. Nela encontram alívio as insônias, as angústias, certos acessos psicóticos, certas depressões. Só precisa tomar cuidado para não sobrepor o corpo à alma. Você toma a medicação e pronto, é como se você não tivesse nada com aquilo.

As pessoas adoecem quando tentam corresponder a esses ideais impossíveis. Esforços sobre-humanos são feitos para ganhar muito dinheiro e sustentar um determinado estilo de vida, verdadeiros retalhamentos são feitos nos corpos das mulheres inconformadas com o envelhecimento... A recusa dos limites corporais vem acompanhada de toda uma máquina a serviço da transposição desses limites. Há uma banalização das práticas cirúrgicas. As intervenções em série revelam uma alienação do próprio corpo, uma entrega aos padrões e imagens estandartizados de beleza. As forças que o habitam são ignoradas, as marcas de cada um e seus movimentos desejantes naufragam diante de uma corrida frenética em direção a um fora de si.

E tudo por quê? Porque a imagem não suporta máculas, ela tem que ser sustentada a qualquer custo.

A sociedade do espetáculo

Vivemos na era da imagem, que é vendida e consumida. Nossa psique está saturada de imagens, elas a sustentam e a substituem. O espetáculo é uma vida de sonho, queremos todos um pouco.

O homem contemporâneo, ator ou consumidor da sociedade do espetáculo, tem seu imaginário em pane. Incapaz de sentir ou imaginar, está sujeito a um automatismo mental e libidinal.

Siderado, guiado pelos "modelos" idealizados de perfeição e completude fabricados pela cultura, o sujeito se enreda numa história que é a sua. Essa "pasteurização" de sujeitos e culturas leva ao apagamento das diferenças (japonesas liras ou de olhos redondos) e gera violência (guerras) ou depressão (repressão da agressividade, sensação de não existência).

Quando não se está sob os cuidados da droga, tem-se nas imagens “o curativo”. Afoga-se no fluxo da mídia os estados de alma, antes que se formulem em palavras. A imagem tem o extraordinário poder de captar angústias e desejos, de controlar sua intensidade e suspender-lhe o sentido.

A vida psíquica do homem moderno situa-se entre os sintomas somáticos (doença, hospital) e a transformação dos desejos em imagens (devaneio diante da televisão, computador). Em tal situação, ela se bloqueia, inibe, morre. Contudo, são muito claros os benefícios de tal regulagem. Mais que uma comodidade ou uma nova variante do “ópio do povo”, essa modificação da vida psíquica prefigura, talvez, uma nova humanidade, a qual terá ultrapassado, com a complacência psicológica, a inquietação metafísica e a busca de sentido para o ser. Não é fabuloso que alguém se satisfaça com uma pílula e uma tela?

Tecnoestresse

Atender celular, passar torpedos, redigir e-mail, pesquisar no Google, falar no Skype, atualizar o Twitter, colocar fotos no Facebook, jogar videogame, tudo ao mesmo tempo e agora.

Temos que fazer sempre mais, mais rápido e melhor. Café solúvel, comida de micro-ondas, macarrão instantâneo, alívio imediato, estar conectado o tempo todo e com todos. O ritmo imposto pela era digital mudou a maneira de perceber o tempo e o relógio biológico. Resultado: as pessoas vivem com a sensação de que nunca conseguirão acompanhar o ritmo das coisas. Essa reação de angústia e suas consequências para o estado de saúde das pessoas são consideradas o mal do século XXI, ou Tecnoestresse, como alguns especialistas preferem chamar a nova síndrome. Toda a população do planeta, desde crianças até idosos está sujeita a esse tipo de estresse.

O termo surgiu para definir aquele desejo incontrolável de viver conectado, verificar constantemente se há alguma “novidade” nas redes sociais, na caixa de entrada, inclusive nas horas de descanso. A internet móvel arrebata ainda mais dependentes, estatísticas internacionais apontam que 20% da população mundial de usuários de smartphones não consegue exercer um uso equilibrado da internet. Tudo isso revela que muitas pessoas não conseguem usar os equipamentos de maneira equilibrada.

O impacto gerado pela evolução digital tem provocado dependência e inúmeros problemas físicos, emocionais e sociais: dores musculares e de cabeça, distúrbios do sono, sedentarismo e obesidade, ansiedade, angústia, irritabilidade e agressividade, dificuldade de concentração, cansaço crônico, isolamento e depressão. Os contatos que exercemos no Facebook ou em outras mídias, por exemplo, são extremamente positivos, nos faz compartilhar ideias, reconectar pessoas, mas não substituem, de forma alguma, a interação humana real, o encontro físico, o calor humano que tanto necessitamos.

Pode-se perceber o problema surgindo quando o excesso de conectividade começa a atrapalhar as atividades de rotina, a vida profissional e as interações sociais. A pessoa não sabe mais onde leu ou viu tal assunto, a informação começa a ficar dispersa e ela tem dificuldades de reter conhecimento.

A relação do sujeito contemporâneo com o tempo

Parece incrível! Conquistamos uma vida mais longa, porém temos menos possibilidades de aproveitá-la... A tecnologia está aí para nos servir, mas somos nós que servimos a ela, nas suas apressadas e múltiplas solicitações simultâneas...

A maioria de nós tem tido a impressão de que o tempo está passando mesmo mais depressa, como se escorresse pelas nossas mãos! Mas afinal o que é que está acontecendo? São muitos os palpites, as especulações. Cada um tem uma explicação diferente. Há quem diga que é uma questão da Física. Mas a preocupação com essa questão é antiga. Há muitas décadas filósofos e pensadores como Walter Benjamim e Henri Bergson vem estudando a relação do homem com o tempo.

Benjamim lamenta a perda do valor da experiência e da narrativa nas sociedades industriais pela forma como elas se organizam e utilizam o tempo. Como sabemos, a utilização do tempo é determinada pelas transformações na cultura. Bergson, por sua vez, aborda o tempo não como a ciência o apreende (visão quantitativa, o tempo do relógio), mas como ele é vivido pela nossa consciência (visão qualitativa, a experiência subjetiva do tempo). Hoje o mundo capitalista globalizado nos propõe a imersão na experiência da velocidade.

Premidos por um sentimento de urgência, numa sequência aparentemente infinita de tarefas a serem cumpridas cotidianamente, os sujeitos contemporâneos se exaurem e se angustiam, numa vida que mais parece uma somatória de instantes velozes que passam sem deixar marcas significativas.

Na sociedade globalizada contemporânea tempo é dinheiro. Na compulsão incansável de produzir resultados os sujeitos vivenciam um eterno presente (que aliás se torna facilmente descartável) e o sentimento de continuidade e encadeamento entre passado, presente e futuro se perde. Entre percepções fugazes, falta tempo de compreender. Falta tempo de concluir. E aí algo se perde do valor da vida. E resta a incômoda sensação de estar se precipitando num vazio em direção à velhice e à morte.

As Novas Formas de Adoecer

Os iluministas (século XVIII) acreditavam que os avanços no campo da ciência, da tecnologia e produtividade trariam somente benefícios para a vida da sociedade, inclusive atendendo aos anseios de felicidade, ao bem-estar subjetivo e a realização existencial dos homens. A razão daria conta d tudo. Mas não foi bem assim.

Freud, em o Mal-estar na Civilização (1930) dizia que o homem civilizado renunciou a seus instintos e trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança. Então, será que a civilização entristece o animal humano?

Na verdade, acho que poderíamos dizer que cada época o beneficia e o entristece de formas diferentes.

O que observamos, sem dúvida nenhuma, é que a cultura contemporânea tende a produzir alienação e objetificação dos sujeitos, que ficam esvaziados de seus ideais e referenciais simbólicos e valores. Pois a eles foram oferecidas soluções imaginárias, que não resolvem suas questões subjetivas, como a sua própria identidade. E com estes parcos recursos, eles criaram bases de sustentação frágeis, uma identidade precária e extremamente vulnerável. Habitante de um espaço e um tempo retalhados e acelerados, tem, com frequência dificuldade de reconhecer em si mesmo uma fisionomia. O homem moderno está perdendo a sua alma. Mas não sabe disso, pois é precisamente o aparelho psíquico que registra as representações e seus valores significantes para o sujeito que está avariado.

A experiência cotidiana parece demonstrar uma espetacular redução da vida interior. Quem hoje em dia ainda tem alma? Pressionados pelo estresse, impacientes por ganhar e gastar, por desfrutar e morrer, os homens e mulheres de hoje economizam essa representação de sua experiência a que chamamos vida psíquica.

Não se dispõe nem do tempo nem do espaço necessários para constituir uma alma. A simples suspeita de tal preocupação parece ridícula, deslocada. O homem moderno é um narcisista. O sofrimento o prende ao corpo, ele somatiza.

Parecem muito bem adaptados (bem-sucedidos) à sociedade tal qual ela é, mas em número bastante grande são sujeitos imaturos, narcisistas, individualistas e superficiais, que repetem discursos prontos. Privado desse relato, seu desejo se anula.

Que doenças são produzidas neste caldo contemporâneo, em que fervem globalização, sociedade de massas e consumo, tecnostresse e nossa acelerada relação com o tempo? Como e porque as pessoas adoecem?
Atualmente o que observamos nas várias modalidades do adoecer é um transbordamento, um COLOCAR EM ATO ou no próprio corpo, algo que não pode se expressar pelas palavras, algo que não encontra caminhos para a simbolização. A impossibilidade de simbolização é o principal problema da nossa cultura hoje.

As pessoas adoecem porque o trajeto dos tais super-homens/mulheres está semeado de ciladas. Dificuldades relacionais e sexuais, sintomas somáticos, impossibilidade de expressar-se e mal-estar generalizado pela sensação de uma vida a certa altura sentida como “artificial”, “vazia” ou “robotizada”. Hoje os psiquiatras e analistas, navegando pela imensa lista de categorias nosográficas atuais, têm que dar conta dos “narcisismos” feridos, das “falsas personalidades”, dos “estados-limite”, dos “psicossomáticos”. Em que pese às diferenças dessas novas sintomatologias, há, unindo-as, um denominador comum: a dificuldade de representar. Quer tome a forma do mutismo psíquico, quer experimente diversos sinais sentidos como “vazios” ou “artificiais”, essa carência da representação psíquica entrava a vida sensorial, sexual, intelectual, e pode prejudicar o próprio funcionamento biológico. Pede-se então ao psicanalista, sob formas disfarçadas, que restaure a vida psíquica para permitir ao corpo falante uma vida melhor.

As novas doenças da alma são dificuldades ou incapacidades de representação psíquica que chegam até a matar o espaço psíquico.

Cabe a nós analistas ajudar os pacientes nesse processo de simbolização. Por nossa possibilidade de entender a lógica dos afetos emparedados e das identificações bloqueadas, permitimos ao sofrimento sair do seu porão. E a linguagem se revitalize e se torne compreensível.

Eles pedem ajuda por não conseguirem mais se satisfazer e se sustentar na miséria narcísica que acompanha a crise moderna dos valores que parece opor-se à busca de si mesmo. Sendo assim, a psicanálise se situa a contracorrente desse conforto moderno que assinala o fim, não da história, mas da possibilidade de falar uma história. A psicanálise vai ter que lidar com esse retraimento narcísico e esse declínio do desejo de saber.

Ela representa, assim como outras formas de busca interior, uma forma de resgate, de preservação da vida, pois a vida do ser falante desperta. Freud nos abriu a possibilidade de um refúgio contra a sociedade do espetáculo e do consumo.

Há que se ter equilíbrio, medida, limite. Bom senso. Segundo Nuccio Ordine, em A utilidade do inútil dói ver os seres humanos, que ignoram a desertificação crescente que suoca o espírito, consagrarem-se exclusivamente a acumular dinheiro e poder... precisamos do sinútil como precisamos das funções vitais essenciais para viver. A poesia, a necessidade de imaginar e de criar... é aí que podemos encontrar o estímulo para pensar um mundo melhor, para cultivar a utopia de poder atenuar senão eliminaras injustiças que se propagam e as desigualdades que pesam (ou deveriam pesar) como uma pedra em nossa consciência.

A Psicanálise poderia ser um dos raros lugares, preservados, de mudança e de surpresa, isto é: de vida. Essa modificação é possível.

Mas como conviver com as tecnologias sem desenvolver uma ansiedade acentuada ou um tecnoestresse? A questão aqui, mais uma vez, é de medida – não se trata de se desconectar completamente. Há que se ter bom senso, pois as tecnologias da informação, se bem utilizadas, podem nos tornar mais ágeis, perceptivos e inventivos. De forma alguma devemos considerá-las como um bicho-papão do qual temos que nos afastar. Temos sim, que delas fazer bom uso, com limites.

Em 1995 o sociólogo italiano Domenico de Masi criticava em "O ócio criativo" a forma tradicional de organização do trabalho, propondo a valorização de uma vida equilibrada, na qual o sujeito deveria ser capaz de mesclar atividades, como o trabalho, o tempo livre e o estudo, considerando a experiência do tempo ocioso como fundamental para a criatividade humana. "Talvez seja necessário recuperar a lembrança das tardes de tédio, daquelas que só acontecem na infância, para entender o que ocorre com o psiquismo em estado de abandono, na ausência de estímulos que solicitem o trabalho do sistema percepção-consciência." *

É importante lembrar que a trama da nossa vida é tecida no tempo que dispomos para viver. E que a utilização desse tempo é de nossa inteira responsabilidade. Quem sabe devêssemos buscar o tempo distendido que se situa fora do avassalador presente comprimido da temporalidade contemporânea. Tempo humanizado - repleto de vivências significativas. Tempo sem pressa, no qual seja possível escrever histórias e inscrever sujeitos.