Textos e Publicações de Carmen Cerqueira Cesar
A Família como um Sistema

A vida é uma experiência compartilhada. Nenhum de nós vive sozinho. A vivência com outros seres humanos nos enriquece e nos faz crescer. Precisamos das outras pessoas. Um bebê não sobrevive sem a ajuda de um adulto. A família é a primeira célula social com a qual interagimos em nossa vida.

A família pode ser vista como um organismo vivo, no qual os órgãos estão numa inter-relação. O que acontece com um membro da família acaba afetando os outros. Portanto, estamos falando de um sistema com uma dinâmica própria, que se auto-regula, que tem um equilíbrio.

Na família, os ciclos da vida se sucedem: as pessoas nascem, crescem e morrem. Um bebê nasce, começa a engatinhar, a andar, vai para a escola. Torna-se adolescente, depois se casa. Os pais envelhecem. Isso tudo representa mudanças. Mas, como cada membro reage às mudanças?

O sistema familiar precisa estar unido, mas também precisa permitir a diferenciação de seus membros, não impedindo seu crescimento. Toda família tem uma identidade própria, mas é composta por várias identidades individuais.

É preciso que os pais dêem condições aos filhos de responder às exigências sociais nas várias fases da vida, se desenvolvendo psicológica e socialmente, se diferenciando do todo familiar, e claro, guardando alguns traços, que os identificam, que lhes dão um sentimento de pertencer, que os enraízam numa genealogia, para que assim possam vir a formar um novo sistema, uma nova família.

Mas para que tudo isto aconteça é preciso que a família tenha flexibilidade. Que seja dinâmica, viva e esteja disponível à mudança. Que possa passar por crises, rupturas, sendo criativa nas soluções e capaz de criar novas formas de relação sempre que for necessário. Qualquer família passa por momentos de desorganização quando um estágio é rompido, para que um novo estágio mais conveniente possa advir.

É de fundamental importância que a família possa tolerar o processo de crescimento e diferenciação de seus membros, suportando os períodos de instabilidade que possam ocorrer, para depois então reencontrar um novo equilíbrio, uma reorganização.

Numa família cada membro tem um papel, uma função, que complementa os papéis dos outros membros. A inter-relação do sistema permite a complementaridade das funções. Assim, a mudança numa pessoa muda todo o sistema. Viver em família é como encenar uma peça de teatro onde cada um tem um papel, um script.

É porisso que em famílias rígidas as funções permanecem cristalizadas, estáticas, pois qualquer mudança é vista como extremamente ameaçadora para o equilíbrio do sistema. Nelas os papéis ficam congelados. As relações são frias ou excessivamente próximas, alguns membros interferem demais na vida dos outros. Às vezes, formam-se alianças, ou um filho é transformado em "problema". Tratam-se de estratégias inconscientes para tentar encobrir a própria angústia.

Nestas famílias os conflitos são constantes: sempre se briga por motivos banais e as verdadeiras questões ficam encobertas. São famílias que se perdem em críticas, exigências, acusações, silêncios, duplas mensagens. Os papéis são mal definidos, com filhos desempenhando papéis paternos.

A condição psicológica de cada sujeito tem a ver com a estrutura familiar da qual ele faz parte. Inevitavelmente, estamos todos envolvidos nessa "trama", que contém trocas e mensagens conscientes e inconscientes, mensagens mudas, mas que são sentidas, fantasias desconhecidas de cada um, que complicam ainda mais os relacionamentos.

Os pais trazem para a sua família atual toda uma história de vida anterior, com sua própria família de origem: conflitos, traumas, bloqueios, inibições, enfim, estilos de comportamento e de sentir, que vão afetar diretamente os novos relacionamentos.