Textos e Publicações de Carmen Cerqueira Cesar
Paternidade
VENHO PENSANDO E FALANDO MUITO, ultimamente, sobre este "novo homem" que se define às portas do século XXI, muitas vezes sofrido, mas que, corajosamente, tenta redefinir sua identidade. Mudou o mundo, mudaram as mulheres. As ideias feministas tomaram as devidas proporções, passados os exageros. Mas toda uma organização social mudou em função de uma nova organização econômica. Padrões machistas de comportamento não se sustentam mais.
Embora ainda existam "náufragos resistentes", cada vez mais homens buscam apoio terapêutico ou, simplesmente, se questionam, à procura de novos caminhos que os situam melhor entre valores mutantes. Então, me parece pertinente pensarmos a paternidade neste novo contexto que se esboça.

Existe uma extensa filmografia sobre o tema. Em Kramer versus Kramer (1979), Dustin Hoffman é um divorciado que cuida do filho pequeno. O filme mostra que ser pai traz à tona uma gama de emoções, para muitos, ainda "coisa de mulher". Ser pai convoca a afetividade, coisa difícil do homem lidar. Para que o filho cresça saudável é essencial que o pai lide bem com suas emoções. Vale lembrar a música Super-homem, do Gilberto Gil, onde se revaloriza esta porção "dita feminina", esquecida pela educação tradicional. Eu diria "reprimida". A meu ver, os homens pagaram um preço muito alto por isso. Alguns ainda tentaram sustentar uma imagem idealizada de si mesmos. Encarnam o super-homem, o papai-sabe tudo. Muitas vezes, acabam pagando com o corpo: um enfarte, uma úlcera, uma gastrite. Uma depressão. É angústia, a tal da Síndrome do pânico...Na verdade, ninguém, é perfeito e todos fazem o que podem. Nada mais psicanalítico. Um pai, conhecendo-se e aceitando-se, com suas qualidades e imperfeições ajudará o filho a se perceber como pessoa e se sentir aceito e amado pelo que é, e não pelo que ele/pai idealiza.

Muita gente projeta nos filhos seus sonhos frustrados, tornando-os depositários de ideais que nem são deles. Esse é um peso enorme para a criança ou adolescente, além de ser uma alienação de si mesmo. A função do pai é, essencialmente, a de possibilitar ao filho, separar-se, criar seu próprio script, seguir seu caminho.A nível simbólico, o pai é quem deve romper o vínculo simbiótico e necessário inicial mãe-filho. A mãe, pelo seu discurso, vai autorizar (ou não), este pai como um terceiro na relação, que será, a partir daí, o representante da Lei, da Lei contra o incesto. A criança, então, ingressará na cultura na linguagem. Perceberá que não é tudo para a mãe e que o Desejo desta está direcionado para outro lugar. Esta "função paterna" salva a criança e a mãe de patologias sérias. É a tal da Castração e tem a ver com o Complexo de Édipo. O pai proíbe, frustra, para o bem de todos e a felicidade geral da nação. A criança aprenderá a ouvir o Não, conhecerá limites. O que a estrutura.

A partir de então, ela fará identificações que a levarão a "viver sua própria vida", a identificar-se sexualmente, buscar seus ideais. Sempre, e sobretudo na adolescência, deve-se incentivar sua autonomia, que constrói sua identidade. Nesta fase, muitos pais se angustiam. Mas o risco é inerente à vida e ao Desejo. O apoio e a paciência são fundamentais. O pai bem resolvido interage com o filho, conversa, troca ideias, aprende com ele. Respeita sua individualidade, sua diferença. Caminha, orienta, às vezes proíbe. Dá referenciais. Este pai pode olhar para dentro de si, já que nada está pronto, o desafio é diário. Pode escutar seu filho, sustentar questões. Não precisa ter resposta para tudo pois a criança/adolescente precisa aprender a resolver problemas, a encontrar soluções criativas. No entanto, defendendo-se, muitos pais escondem-se numa capa de inútil autoritarismo. No fundo, tem medo. Porque os filhos fazem os adultos se confrontarem com questões muitas vezes mal resolvidas, reviverem momentos que queriam esquecer. Eles, que um dia também fora filhos-crianças, filhos adolescentes.

Para além do pai encarnado, há outros filmes da relação pai-filho ou da busca pela figura paterna. O belíssimo Paisagem na Neblina (1988), do grego Theo Angelopoulus, Paris-Texas (1984), de Wim Wenders, Central do Brasil (1988), de Walter Salles Jr. A busca no que ela pode ter de mais simbólico a nível de referência paterna...
Sim, porque ele pode até ter morrido ou partido e, ainda assim, funcionar como pai, com a mãe falando dele, construindo sua história. O menino Josué busca seu pai, de quem a mãe falava tanto antes de morrer. Não o encontra de carne e osso, mas tem acesso ao seu lugar no mundo. Os irmãos lhe falam dele. Em Central do Brasil, como em Paisagem na Neblina, o pai é apenas uma referência simbólica numa terra aparentemente sem lei, sem Deus, muitas vezes cruel. Não é necessário o pai real para que a criança se estruture, mas alguém que sustente esta função.

Hoje, na vida real, pais de carne e osso tentam, bravamente, desempenhar seu papel na sociedade e junto aos filhos. Pais casados, pais separados. Sabem que isso dá trabalho. Exige esforço, paciência, amor, perseverança. E sobretudo coragem de se expor, de se virar pelo avesso, se necessário for. Coragem de abrir espaços internos, para acolher, como uma concha, se necessário for. Coragem para se tornar desnecessário, quando necessário for. Pai, com amor, coragem, pra você, muito mais que o necessário.