Textos e Publicações de Carmen Cerqueira Cesar
Como se dar um tempo
A demanda da cultura contemporânea globalizada é a da completude, da realização, da excelente performance. Nos ideais que circulam via esse discurso, nada pode faltar. Valores idealizados, incutidos em nós nos dizem o tempo todo que temos que ser boas em tudo: mães, esposas, companheiras, amantes, profissionais, ter o corpo perfeito, o casamento perfeito, filhos perfeitos.
Isso é quase uma obrigação. E o tempo todo objetos e serviços são oferecidos, prometendo consertar o imperfeito, curar a dor, completar a falta. Confunde-se objeto de desejo com objeto de consumo.

Fica parecendo que tudo é possível, e que se falharmos em alguma área, o problema está em nós. E nos sentimos imensamente culpadas, pela imensa cobrança de ideais impossíveis. Só que a vida real é diferente, é imperfeita, e é bonita e fascinante justamente porque é assim. Não é “super”, nem é feita de silicone.

A mulher, com sua tendência natural a fazer várias coisas ao mesmo tempo, acaba se exigindo cada vez mais! Precisa desesperadamente dar conta de tudo, cada vez mais e melhor, para conquistar, para se realizar, para não perder o emprego, paro não perder o marido... e... onde ela acha que ganha, pode estar perdendo.

Num videoclipe supersônico, nossa sarada “Speedy”, “workholic”, “a 100%” - desaparece enquanto sujeito de seu desejo, perdida numa velocidade frenética, num discurso sem pontuação. Não pode parar, não respira. Sua fala não tem travessão, vírgula, ponto e vírgula, ponto, na outro linha. Ofegante, acaba produzindo um discurso psicótico, verborrágico, louco, sem pontos de ancoragem, que possam dar sentido à vida.

A neurose obsessiva compulsiva é a neurose do momento par excelência. Hoje tudo é obsessão e compulsividade: drogas, álcool, comer muito, não comer, consumismo exagerado, excesso de trabalho. Muitas pessoas têm dificuldade em estabelecer limites, transbordam, não conseguem parar. Mas esta neurose é extremamente benéfica para o sistema capitalista porque gera alta performance e produtividade.

Estas também são razões para termos hoje tantos casos de stress, gerando quadros depressivos, ansiosos, fóbicos. Nunca se ouviu falar tanto em depressão, síndrome do pânico, distúrbios de alimentação, como obesidade, anorexia, bulimia, entre outros.

No loucura de TER ou PARECER TER as pessoas se esquecem de SER. Elas mesmas, como podem. Cada uma, na sua singularidade. Um campo de potencialidades e limitações. Como é próprio da vida.

A questão se agrava no caso de mulheres que ainda tem a famosa “dupla jornada”. Na verdade, antigos valores culturais que definiram por séculos o que era “ser homem” e o que era “ser mulher” caíram por terra. Nenhuma mulher é hoje menos feminina se trabalha e sustenta a casa e nenhum homem menos masculino se ajuda nas tarefas domésticas e cuida dos filhos. As funções definidas pela cultura como exclusivamente femininas ou masculinas hoje são amplamente questionadas. Homens e mulheres dividem tarefas. São companheiros. Relacionamento hoje é sinônimo de “parceria”.

Para que se possa viver mais plenamente há que se ter foco e clareza de objetivos. Traçar metas, fazer planos, estabelecer prioridades no tempo e espaço, trabalhar dentro dos limites do possível. Respirar, pontuar, relaxar.

Para que se possa ser produtivo e feliz há que se rever valores e ideais. Redescobrir-se. Incluir na agenda a própria vida, ter mais de si mesmo nas pequenas tarefas cotidianas.

Relaxar significa resgatar. Uma vida humanizada e criativa. Saúde física e mental. Qualidade de vida. Mas para que isso ocorra há que se perder o medo de perder, para que se possa ganhar mais para a frente.