Textos e Publicações de Carmen Cerqueira Cesar
Depressão
Pesquisas recentes detectam uma verdadeira epidemia de depressão nos séculos XX e XXI. Depressão é diferente de tristeza, pesar, luto. Estes fazem parte da vida e a gente tem que lidar com eles. Depressão não - é doença e pode ocorrer com qualquer pessoa, em qualquer idade. Mas felizmente pode ser tratada, curada ou controlada.
Caracteriza-se pelo sentimento de vazio, perda, falta. Falta de sentido. “A minha vida não tem sentido”, argumenta o depressivo. Há um sentimento de desamparo, solidão existencial. Muitas vezes o desencanto é absoluto. Dor de alma, morte em vida. E a sensação de que nunca vai passar.

O depressivo sente tristeza, desânimo e fadiga. Falta-lhe energia. Não sente prazer ou interesse em qualquer atividade. A auto-confiança diminui e um pessimismo acentuado o leva a ver só o lado negativo das coisas. Falta-lhe esperança no futuro.

Apresenta inibição afetiva (espécie de "anestesia psíquica" - uma diminuição do interesse pelos relacionamentos sociais, afetivos e pela sexualidade); inibição motora (retardo e lentidão dos movimentos - não tem vontade de fazer nada, às vezes até de levantar da cama, 'de tomar banho) e inibição intelectual (dificuldade de raciocínio, perda da memória, diminuição da capacidade de concentração).

Comumente a pessoa apresenta dores: de cabeça, nas articulações, musculares, assim como alterações do sono e apetite (aumento ou diminuição); chora facilmente. É comum o aumento da irritabilidade e do mau humor, tornando-se difícil a convivência com o depressivo.

A avaliação que faz de si mesmo é rigorosa e cruel. Sente remorso e culpa, sofre de ruminações, se auto-recrimina. Sua auto-estima é muito baixa. No fundo acha-se um fraco. Isto acontece porque comumente o depressivo é visto como alguém que não tem força de vontade, um preguiçoso, que não "quer" reagir.

Mas depressão é coisa séria e precisa ser tratada. Atrapalha de fato a vida do sujeito (em todos os sentidos, não tem vontade de trabalhar, de amar, de se relacionar). E não se trata de fraqueza nem de falta de fé.

As causas da depressão podem ser múltiplas e podem aparecer combinadas ou não: fatores genéticos (hereditariedade); fatores psicológicos (ambientais; educacionais); fatores neuropsíquicos (química cerebral); fatores hormonais (ex. menopausa); e finalmente os fatores sócio-econômicos e culturais que merecem um destaque especial.

As aceleradas mudanças dos últimos 50 anos geraram insegurança e um profundo sentimento de desamparo. A crise sócio-econômica trouxe o desemprego, o empobrecimento, a miséria crescente, a violência urbana. O indivíduo está privado de sua liberdade. Solidão, uso abusivo de drogas, profundas modificações nas estruturas familiares, a fragilização das figuras paternas, da autoridade e da Lei e o esfacelamento das ideologias deram origem ao que os psicólogos chamam de "mal estar na cultura".

Porisso, o momento histórico em que vivemos é fortemente propício à depressão. Vivemos submetidos aos imperativos de um ideal exigente. Há que se ter excelente performance em todas as áreas da vida. A exigência do sucesso a qualquer preço gera stress e um profundo sentimento de insuficiência porque sempre se estará aquém do esperado.

É assim que o sujeito se aliena, perde seus referenciais, se desvincula de seus afetos. Sua existência perde os sentidos possíveis.

Siderado, guiado pelos "modelos" idealizados de perfeição e completude fabricados pela cultura globalizada contemporânea, enreda-se numa história que não é a sua.

Essa "pasteurização" de sujeitos e culturas leva ao apagamento das diferenças e gera violência (guerras) ou depressão (repressão da agressividade, sensação de não existência).

Em muitos casos um processo depressivo é deflagrado pela dificuldade de elaborar um luto pela perda de uma pessoa querida, a perda de um amor, um baque financeiro, uma decepção no trabalho, o empobrecimento - mas são sempre situações que se engancham em dores precoces. Ou seja, ali já havia uma predisposição do indivíduo para desenvolver depressão.

Atualmente o tratamento da depressão é feito pela combinação de medicamentos antidepressivos + psicoterapia. O medicamento trata a causa orgânica. A psicoterapia busca as causas emocionais que levaram à depressão, buscando-se os sentidos que faltam, possibilitando ao sujeito reescrever sua própria história.

Para que o ser humano seja um móbile equilibrado ele também tem que levar em conta as várias dimensões da vida. Espiritualidade e fé também podem ajudar muito no tratamento. O referencial simbólico paterno é da mais alta importância na estruturação dos sujeitos (especialmente nos dias de hoje): através de um amor que possibilita vivências, mas que também coloca limites, abre-se um campo de possibilidades de vida.

Sustentando uma Lei necessária (porque estrutura) faz operar algo da "função paterna" que permite que o indivíduo transite com o seu desejo pela vida: que ame, seja amado, relacione-se, trabalhe, case, tenha filhos, crie, fale, escreva ...

Quem tem depressão deve procurar ajuda.