Textos e Publicações de Carmen Cerqueira Cesar
Seja você mesmo
Existem pessoas que por medo de não serem amadas dizem sim a tudo. Com medo da rejeição, quase nunca expressam suas verdadeiras opiniões. Mesmo frente a pessoas invasivas, são incapazes de colocar limites. Deixam-se invadir, engolem sapos, acabam fazendo o que não desejam.

Essas pessoas não sabem usar a agressividade. A agressividade é um impulso natural no ser humano e extremamente necessário para a sobrevivência. Neste caso a sobrevivência psíquica. Quem aprendeu a reprimí-la está correndo um sério risco. Risco de implosão. Ou de explosão.

Assim como a pulsão sexual, a pulsão agressiva representa energia. Se ela é acionada internamente e não se expressa no mundo externo fica represada dentro do sujeito. E ele vira uma panela de pressão.

Mas como aprendemos a reprimir as emoções? Via cultura e educação. Desde cedo, aprendemos que não podemos manifestar certas emoções consideradas negativas, nem mesmo sentí-las! E quando isto acontece nos sentimos culpados. Então fingimos que elas não existem porque temos medo da rejeição e do desamor. Posteriormente esse comportamento se automatiza e permanece inconsciente, marcando o sujeito para toda a vida.

Algumas pessoas foram muito desqualificadas ou repreendidas na infância e assim desenvolveram uma auto-imagem muito negativa. Foram deixando pedaços de si pelo caminho, se desvalorizando. Por não se acharem merecedoras de nada, sabotam seus próprios planos.

A criança pequena não tem maturidade emocional para reagir. Quanto menor ela for, mais vulnerável será a essa influência e não lhe restará nada além da submissão. Essas primeiras marcas vão selar o destino das pessoas.

Porisso é que ser pai ou ser mãe implica numa enorme "responsabilidade emocional". E aí o auto-conhecimento é fundamental, pois pode-se interferir de forma prejudicial no desenvolvimento dos filhos. Alguns pais rejeitam neles tudo aquilo que não corresponde aos seus próprios desejos e ideais ou o que os relembre de alguma emoção que eles próprios reprimiram.

Não conseguem enxergá-lo como um ser separado deles, com seu próprio desejo e sua diferença. São pais que acabarão dificultando muito o necessário processo de separação dos filhos em direção à própria vida. Imaturos, são eles que precisam dos filhos e não o contrário!

Nesses casos, o filho tem uma função na dinâmica familiar. Cumpre o papel de ser o apêndice do desejo materno ou paterno. Ao tentarem se independer, serão desqualificados, rejeitados ou sabotados. Mas observem, tudo isso se passa num nível inconsciente e se os pais tivessem consciência desse processo, certamente não o fariam!

Se esse filho, ao chegar à vida adulta, não tomar consciência de sua história e tentar mudá-la, acabará reproduzindo em suas relações a matriz dessa relação primitiva, pois esse comportamento aprendido está internalizado. Geralmente a pessoa não percebe que age assim, mas pode estar deprimida, "empobrecida" em seus recursos internos para enfrentar a vida. Sofre de algum tipo de "mal-estar" e acaba desenvolvendo sintomas. Uma boa terapia pode ajudá-la a rever os valores aprendidos, a se requalificar e a mudar seu posicionamento na vida.

De fato, nos estruturamos a partir do olhar do Outro primordial, esse Outro materno que ajuda a constituir o sujeito no início de sua vida. Espelho necessário num primeiro momento, mas do qual o sujeito deve se separar. Para que possa existir e construir sua própria história. E para que, sustentando seu próprio desejo, possa pagar o preço de ser quem realmente é.