Textos e Publicações de Carmen Cerqueira Cesar
Conflitos na família e o que isso representa para a criança
A família, a criança e o sintoma

Não dá para fa­lar de criança e seu sintoma sem falar da família. Na verdade, todas as famílias têm problemas, mal-entendidos, coisas veladas. Não existe perfeição, mas é importante poder pensar sobre certas questões. A ajuda de um terapeuta em muitos casos é necessária. A criança pode apresentar sintomas como distúrbios escolares, de comportamento, além de sintomas físicos, como enxaqueca, insônia, enurese, encoprese, alergias, asma, bronquite, etc.

Nenhum de nós vive sozinho. A vivência com outros seres humanos nos enriquece e nos faz crescer. Precisamos das outras pessoas. Um bebê não sobrevive sem a ajuda do adulto. A vida é uma experiência compartilhada. Nos primeiros anos de vida essa troca é quase que exclusiva com a família, que acaba sendo a unidade básica de crescimento e experiência, desempenho ou falha, saúde ou neurose. Mais tarde, a troca passa a ocorrer com o social cada vez mais amplo.

No início da vida do bebê, a relação é muito intensa e praticamente exclusiva com a mãe. É uma relação primitiva, simbiótica, mas necessária. Mais tarde, o pai vai ter que ir entrando nessa relação, se interpondo com sua palavra entre mãe e filho, para que essa criança se desenvolva. Sua presença e importância devem chegar até a criança via discurso materno e isso é essencial para o seu desenvolvimento. Porque o pai significa a Lei, a proibição do incesto, a entrada da criança no social mais amplo. Quando a mãe é quem manda e exclui o pai da relação, se agarrando na criança, esta fica aprisionada no desejo materno, não podendo se tornar uma pessoa saudável e independente.

A família pode ser vista como um organismo vivo, no qual os órgãos estão numa inter-relação. O que acontece com um membro da família acaba refletindo nos outros. Portanto, estamos falando de um sistema com uma dinâmica própria. Ele se auto-regula, tem um equilíbrio. É como um móbile. Nada mais equilibrado que um móbile. No entanto, nada mais instável.

Na família, os ciclos da vida se sucedem: as pessoas nascem, crescem e morrem. Um bebê nasce, começa a engatinhar, a andar, vai para a escola. Isso representa mudanças. Como os pais reagem a isso? Como a criança reage a isso? Depois a criança cresce mais, se torna adolescente. Que mudança! Como os pais reagem? Como os irmãos mais novos reagem? É um novo ciclo de vida para a família que vai ter que se adaptar a essa mudança. Se, por exemplo, há uma separação do casal. Como isso é sentido e elaborado? Uma filha namora e se casa. Como isso é sentido pelos pais? Pais que estão envelhecendo, pais que estão tendo que se reformular o tempo todo.

O sistema familiar precisa estar unido, mas também precisa permitir a diferenciação de seus membros, de seus filhos, não impedindo seu crescimento. E eles nem sempre são ou fazem o que os pais querem ou esperam. Como então deixar isto acontecer?

A família tem uma identidade familiar, mas é composta por várias identidades individuais. É preciso dar condições para que os filhos possam responder às exigências sociais nas várias fases, para que eles possam passar pelos ciclos de vida. Assim eles se desenvolvem psicológica e socialmente, se diferenciam do todo familiar, guardando alguns traços para que um dia possam formar um novo sistema, uma nova família.

Para que tudo isto aconteça é preciso que a família tenha flexibilidade - como o móbile. Que seja dinâmica, criativa, disponível à mudança. Isto permite que a família passe por crises (que são normais), rupturas, sendo capaz de criar novas formas de relação sempre que fôr necessário. A família precisa tolerar o processo de crescimento e diferenciação de seus membros, suportando os períodos de instabilidade que possam ocorrer. E aí então voltar a procurar um novo equilíbrio, uma reorganização.

A família passa por momentos de desorganização quando um estágio é rompido para se preparar para a mudança para outro estágio mais conveniente. Isto é possível quando a família é flexível.

Numa família cada pessoa, pelo seu jeitão ou pelo seu comportamento, passa a ter um papel, uma função. Por exemplo, duas irmãs, uma é super responsável, faz tudo por todos e a outra é desligada, sonhadora, vive no mundo da lua, deixando toda a responsabilidade para a outra. Uma não pode sonhar, a outra não assume responsabilidade por nada. Mas só é assim porque a outra faz por ela. E se um dia esta que é a responsável mudar? E se ela deixar de fazer pela irmã? A desligada vai ter que se ligar.

A inter-relação do sistema permite a complementaridade das funções. Assim, a mudança numa pessoa muda o sistema. Outro exemplo: quando uma criança começa a melhorar com a terapia, o resto da família vai sentir uma alteração no equilíbrio familiar. O menino-problema, que só tirava notas baixas na escola e que trazia bilhetes da diretora todos os dias era o assunto da hora do almoço ou jantar. A família inteira se ocupava dele, mil discussões, conversas, etc. Quando ele melhora do que se vai falar? Dos problemas deles!!!

Vamos voltar um pouco. Estávamos falando de famílias saudáveis, flexíveis. E as outras famílias que são rígidas? Nelas as funções permanecem cristalizadas, estáticas. As pessoas não podem crescer. Qualquer mudança é vista como extremamente ameaçadora. Se um membro muda, melhora, o que vai ser do outro? Vai ter que se ver com os seus problemas, vai ter que encarar aquilo de que está fugindo! Exemplo, uma mãe que inconscientemente impede a filha adolescente de crescer, ou porque ela vai ficar sem ter o que fazer se a filha ganhar independência, ou porque vai se sentir velha se a filha arrumar um namorado... ou porque vai se deparar com um vazio interior e com o seu medo e a sua angústia, de talvez sair para trabalhar, olhar para um marido que não a satisfaz mais...

Nestas famílias as relações, os papéis ficam congelados. Ou são pessoas muito distantes, ou excessivamente próximas, interferindo demais na vida uns dos outros. Às vezes, formam alianças, como por exemplo, um pai com uma filha, deixando a mãe de lado... ou transformam um filho em bode expiatório; Joãozinho é um fracassado crônico, esse menino não tem jeito. Joãozinho na verdade é a válvula de segurança para os pais não terem, por exemplo, que falar de seus problemas conjugais. Joãozinho é assunto de conversa 24 horas por dia. Este mecanismo é inconsciente. Os pais conscientemente querem que o filho me­lhore, mas inconscientemente não, não querem mudar nada, para se defenderem de si mesmos. Não é por mal.

Esses comportamentos-problemas de uma criança têm uma função no grupo familiar. As mudanças não são desejadas, tudo é feito para que as coisas permaneçam como estão. Outro ex: uma criança com o sintoma - medo, este medo pode desaparecer se o casal mudar a forma de se relacionar entre si, buscando uma aproximação. Como nem sempre o casal está disposto a isso, o sintoma do filho cumpre uma função - mantém os pais unidos na preocupação com o filho - e afastados de uma relação mais próxima entre si. Como já vimos, esse processo não ocorre de forma voluntária, por parte dos pais e filho, mas acaba se cristalizando numa forma de relacionamento que resiste à tentativa de mudança. São relações invisíveis, inconscientes, porisso tão difíceis de enxergar.

Nestas famílias ocorrem muitos conflitos: sempre se briga por motivos banais e as verdadeiras questões ficam encobertas. São familias que se perdem em críticas, exigências, acusações, silêncios, duplas mensagens, ou seja, o que a criança escuta é diferente daquilo que percebe. Os papéis são mal definidos, com filhos desempenhando papéis paternos. Pais com dificuldade de assumir papel de pais. Trabalhei com famílias onde não se sabia quem era mais imaturo, se os filhos, ou os pais. Pais que ainda eram filhos. Então se observava um bando de crianças.

Assim, vamos chegando à conclusão que a condição psicológica de uma criança tem muito a ver com a estrutura da família da qual ela faz parte. É uma trama familiar na qual ela está envolvida, que contém trocas e mensagens conscientes e inconscientes, mensagens mudas, mas que as pessoas sentem, fantasias desconhecidas de cada um e que complicam ainda mais o relacionamento.

Não devemos nos esquecer que os pais trazem para a sua família atual toda uma história de vida anterior, com sua própria família de origem: conflitos, traumas, bloqueios, inibições, enfim, estilos de comportamento e de sentir, de se relacionar, que vão afetar desde a escolha do parceiro, sua relação com ele e a relação com os filhos.

A experiência mostra que numa análise de crianças, quando se faz um trabalho paralelo ou junto com os pais, com a família, esta passa a perceber os esquemas de relacionamento, fantasias, expectativas, etc, e começa a experimentar novas formas de se relacionar. Os sintomas da criança tendem a desaparecer.

Nessa análise entram as características individuais da criança, seus processos dinâmicos internos e a situação familiar. Não se deve, a meu ver, nem colocar a criança como “criança-problema” e tratá-la sozinha, como um mecânico que conserta um carro quebrado, nem colocar a responsabilidade toda na família. O ideal é analisar a situação como um todo.

Exemplo: “Uma senhora traz sua filha de 10 anos ao psicoterapeuta porque a menina se queixa de falta de apetite às refeições e come muito pouco, mas nos intervalos não deixa a geladeira em paz. O problema da menina é facilmente identificado, à moda tradicional, como “perda neurótica do apetite” combinada com “comer compulsivo”. A mãe se propõe a entregar a criança ao terapeuta como “paciente” ou, para ser mais exato, como “delinqüente”, e recebê-la de volta uma vez corrigido o defeito. A mãe está agindo simplesmente como cliente, como o genitor sadio que traz o filho para o tratamento necessário, como se fosse uma operação das amídalas ou de apêndice: não se pode negar que muitos psicólogos aceitam ingenuamente o papel que lhes é atribuído por mães desse tipo. Assumem que os maus hábitos alimentares da criança constituem uma dificuldade de comportamento inteiramente individual que deve ser tratada terapeuticamente. Aliados à mãe, tentar ensinar à criança a “comer adequadamente”.

Na realidade, ao recusar-se a comer, essa criança de 10 anos está protestando contra a mãe que é uma tirana, que limita rigorosamente sua liberdade de ação e fiscaliza tudo o que ela faz. Além disso, a mãe espera que a criança exprima gratidão por “tudo o que é feito por ela”, e a menina não consegue defender seus direitos contra essa tirania. Para a mãe, o comer tem um papel especial: é um dos seus instrumentos favoritos de controle. A família tem que apreciar e elogiar sua comida, senão ela se ofende e manifesta aos berros sua reprovação. O pai, que é tão incapaz quanto a filha de enfrentar sua mulher, freqüentemente evita as refeições em família sob pretexto de trabalho. A filha percebe a oposição secreta do pai e sabe que são aliados. A alternância entre não comer e empanturrar-se às escondidas é principalmente um protesto disfarçado contra a dominação da mãe que se tornou insuportável. É uma oposição não-verbal num ponto em que a mãe é especialmente vulnerável: a menina está punindo a mãe pela opressão que ela exerce, recusando-se a comer, algo que a mãe não pode suportar. Portanto, o problema de alimentação da menina só pode ser adequadamente compreendido se for relacionado com a atitude da mãe. O distúrbio não está na criança; é a comunicação na família que está perturbada, principalmente pelo comportamento descontrolado e inconseqüente da mãe. Os sintomas da menina são sinais de defesa desesperada contra uma força superior, por não ter encontrado, no seu desamparo e medo, outro meio de enfrentá-la.¹

Para que possamos compreender melhor estes conflitos há que se pensar no que cada um traz dentro de si: verdades, meias-verdades, mentiras; tanta coisa recalcada, conteúdos ameaçadores, que eles não querem saber, porque machucam, porque dá medo. Assim, a família acaba sendo um excelente lugar para depositar esses conteúdos, projetando no outro o que não aceita em si. “É o outro que é egoísta e não eu”. É um mecanismo inconsciente e provoca sérios distúrbios na comunicação entre pais e filhos, entre marido e mulher.

A criança, imatura para se defender, acaba quase sempre ficando com esses papéis, pedaços descartados que o adulto joga para ela, mesmo sem perceber.

Isso pode tanto ocorrer entre o casal como entre pais e filhos. O outro (filho, marido...) passa a ser uma extensão da pessoa, que vai precisar dele para sempre, odiá-lo pelo que ele representa e que é parte dela mesma. E viverão infelizes para sempre, dependentes uns dos outros. Ex. “S. quer fazer um curso noturno e diz que seu marido não deixa; não reconhece que é ela que tem medo de enfrentar o novo, que tem que vencer a preguiça...”

Viver em família é como encenar uma peça de teatro onde cada um tem um papel, um script. Nas relações acima descritas existe uma extrema dependência inconsciente. Na verdade, nenhum dos parceiros consegue se enxergar como uma pessoa inteira e vai sempre brigar consigo mesmo no outro. É como ter um corpo mutilado, uma personalidade onde faltam pedaços. E se depende absolutamente da pessoa complementar. Isso pode ocorrer tanto entre adultos como entre pais e filhos. Acontece que geralmente é o adulto que impõe à criança um papel necessário para a sua própria fuga do conflito interior:

Exemplos: uma mãe que teve no passado uma difícil e não resolvida relação com uma irmã brilhante; sua filha a faz lembrar muito essa irmã, por causa da inteligência; ela vai ter conflitos com essa filha, pelos mesmos sentimentos ambivalentes que teve em relação à irmã;

- uma mãe que não vive bem sua sexualidade, provavelmente terá conflitos com a filha que esteja iniciando sua vida sexual. Pode, inconscientemente, tentar reprimi-la porque não vai agüentar vê-la vivendo; nada pior para um santo que um pecador feliz;²

- um pai que exige que seu filho preencha um ideal profissional que ele mesmo não conseguiu alcançar, tentando compensar seu próprio fracasso;

- um pai que deposita no filho seu lado “negativo”, sua agressividade, que despreza e reprime. O filho é punido, aliviando o pai do castigo que ele próprio secretamente julga merecer. A culpa inconsciente de ter esse impulso é desta forma aliviada.

- um pai pode também depositar seu lado “fraco” no filho e este a assumir. Um pai que só pode ter de si uma imagem grande, enérgica, forte, esconde sua convicção reprimida de insignificância, fraqueza e passividade, e isso dura enquanto seu filho expressar tudo isso por ele. Pode-se dizer que o filho expressa a depressão contra a qual o pai se defende. Assim, o pai se sente seguro enquanto o filho aceitar esse pacto. Para o pai ver-se como realmente é, é muito doloroso. O filho pobre e fraco permite que o pai brilhe sem qualquer ameaça em toda a sua grandeza. As pessoas perguntam: Como é que fulano agüenta esse filho tão babaca? Ele é um peso para fulano! Que nada! Ele não só agüenta, como precisa do filho assim, como compensação para ele, senão desmorona.

Como vimos, o que costuma acontecer em consultório é que a criança com sintomas de baixo rendimento escolar, agressividade, depressão, etc, é vista como um caso isolado, como aquela que tem o problema.

Na verdade, quando a criança é trazida para terapia com um sintoma, isso quer dizer, quase sempre, que algo não vai muito bem no grupo familiar. O sintoma é quase sempre a expressão de algo que não pode ser dito, que permanece oculto nessa família. Quando a criança é trazida ao consultório, os pais apresentam uma queixa, que normalmente encobre sintomas mais sérios, ou pelo menos diferentes daqueles que motivaram a consulta. O que vem normalmente são queixas de dificuldades escolares, distúrbios de comportamento, reações somáticas, fobias (os medos infantis).

Em Psicanálise infantil, na primeira consulta, estamos submetidos ao pedido dos pais, que, muitas vezes querem que a gente urgentemente resolva o problema como um psiquiatra ou um pedagogo. Com isto se corre o risco de perder de vista o principal, que é a dimensão psicanalítica do caso. A criança é ela, com sua individualidade, mas está dentro de uma situação.

Desordens, problemas, todas as famílias têm, o que é ruim é os pais se negarem a enxergar mais amplamente, para além da “criança-problema”, ou seja, para si mesmos.

Não é tanto o confronto da criança com uma verdade penosa que é traumatizante, mas o seu confronto com a “mentira” do adulto. No seu sintoma, é exatamente essa mentira que ela expressa. O que lhe faz mal não é tanto a situação real quanto aquilo que não foi claramente verbalizado. É o não-dito que aqui assume importância.

Através da situação familiar a atenção do analista vai, portanto, recair na palavra dos pais e na da mãe em particular, pois veremos que a posição do pai para a criança vai depender do lugar que ele ocupa no discurso materno.

Aqui estão alguns exemplos de crianças com dificuldades escolares:

V. sexo masculino, 14 anos: Mãe: “O mais velho saiu ao pai, é brilhante. O mais novo, V., puxou a mim, e infelizmente eu comecei uma série de coisas, mas nada terminei.” V. sente-se rejeitado pelo pai, que se identifica com o mais velho, e sente-se estranho a V. V. só lhe lembra de seus complexos, enquanto que o mais velho deleita-o com seus êxitos.

N. sexo masculino, 15 anos: abrupto declínio escolar. Mãe: “Quando estou deprimida eu o ajudo em seus deveres, mas ele não quer mais saber do meu auxílio. Ora, para sua informação o pai dele é uma criatura mole, distraída, cansada, inútil.” Os pais têm depressão. Enquanto N. for para seus pais um objeto de preocupação, eles têm um motivo para apegar-se à vida. O declínio escolar é um alarme contra a ameaça de depressão nesse adolescente.

S. sexo feminino, 11 anos: ameaçada de ser expulsa da escola. Mãe: “Trago-lhe S. minha filha por indicação do Dr. X, sem o consentimento do pai.” Esta mãe excluiu o pai da relação, tenta tornar o terapeuta seu cúmplice nisso. Só que S. fica vivendo um conflito, uma angústia, porque a mãe não considera a palavra do pai. Ele existe. Mesmo que seja para o pai dizer “não”, ele precisa marcar a sua presença.
Nas dificuldades escolares somos introduzidos, através do sintoma escolar, no mundo interno das fantasias da mãe. A criança tem por missão realizar os seus sonhos perdidos. O seu erro (da criança) reside quase sempre em não aceitar colocar-se no lugar que lhe está reservado de antemão. Porque se a criança jogasse o jogo da mãe, se veria imediatamente exposta a outros problemas bem mais graves: o de um Édipo impossível.

Para que os pais aceitem a idéia de uma análise para o filho, é também necessário que tenham coragem de ser desalojados (pelo filho) do conforto que dá a cumplicidade da mentira.

A criança serve, com o seu sintoma, para tapar a angústia dos pais.

O sintoma do declínio escolar é, na verdade, um grito de alarme lançado por uma criança, adolescente que clama por ajuda. O sintoma é uma linguagem que nos cabe decifrar.

O que está em jogo para essas crianças é a vontade de ver o desejo delas reconhecido, uma vez que não puderam expressá-lo pela palavra. É nos símbolos do sintoma que a criança vai se exprimir.

A função do analista é desnudar essa rede, tirar a criança de uma dependência neurótica em relação ao desejo inconsciente do outro, da mãe, ajudá-la a articular o seu pedido, para que possa dar-lhe um sentido.

Exemplos:

T. sexo masculino, 9 anos: dificuldades escolares, revoltado, agressivo. A mãe não queria filhos, teve três. Mãe: “Não fui feita para ser uma dona de casa. Fico muito nervosa, são os meus filhos que apanham.” A mãe reagiu ao nascimento dos filhos não desejados com esse “nervosismo”. T. exprime através dos seus distúrbios, o mal-estar materno.

C. sexo feminino, 16 anos: revoltada, mal-humorada, briguenta. Todos se afastam dela. C. é objeto exclusivo de uma mãe depressiva a quem o marido abandonou. A mãe suportou mal esse abandono, e a criança teve que ajudá-la. C.: “Eu sou de tal forma tudo para ela que, quando ela não está presente, não sou mais nada, estrago tudo. Para mim teria sido melhor se mamãe se casasse de novo, pois ela sentiria menos necessidade de mim.” C. está alienada na história da mãe e repete, na sua vida, situações de abandono, provoca as pessoas até que elas as rejeitem. Seu papel é ficar com a mãe.
Exemplos de sintomas físicos:

Pediatras nos encaminham certos casos que passam por inúmeras consultas, tratamentos, e continua a persistir o sintoma (incontinência, magreza patológica, anorexia, insônia, enxaqueca, asma, alergia, etc).

1. C. sexo masculino, 6 anos: incontinência. Mãe: “Se eu não tivesse tido filhos, teria podido acompanhar meu marido em suas viagens.” O pai de C. vive na África. A mãe fica sozinha, fica mal sem o marido, não trabalha, está abatida, sem amigos. Ela já não existe fora de seus filhos. Eles vão pagar pelo fato de terem nascido. A mãe é autoritária com C. e briga com ele por causa do xixi. O sintoma de C. expressa uma rebeldia contra essa mãe proibidora, que não leva em conta seus desejos do filho. A mãe veio, através desse filho, procurar ajuda para si própria. Ele era o testemunho da sua aflição. Foi através desse filho que essa mãe pôde formular a sua questão. Mas não estava ainda madura para uma análise pessoal. Então ela ainda continua a necessitar de C. para traduzir a sua aflição. Se lhe tiram o menino, ela sente-se tomada de angústia

Essas mães deveriam aceitar a sua existência própria, independente da dos filhos. Aí a criança poderia também melhorar.

2. M. sexo feminino, 12 anos: sofre de enxaqueca, é asmática. A mãe vem ficar junto com M. na cama, toda vez que ela tem enxaqueca ou crises de asma. O pai é afastado dessa relação pela mãe, ele fica excluído. Os avós maternos vivem junto e participam muito. A mãe é muito ligada aos seus pais e à filha. M.: “De 15 em 15 minutos mamãe me pergunta se estou com dor de cabeça. Papai não quer, mas não é ele que manda. Então, mamãe me interroga, me faz tomar comprimidos, sempre para o meu bem, ela quer fazer alguma coisa.” M. não tem o direito de praticar esportes ou estudar música. Tudo lhe é proibido em função de sua enfermidade orgânica. M. não tem desejos, ela é o desejo materno. O seu mal-estar orgânico é a expressão da angústia da mãe. A criança com o seu corpo traduz uma angústia que tem sua sede na mãe. A ausência de um pai que proíba, que se interponha nessa relação, traz conseqüências para o desenvolvimento de M. O que não pode ser vivido em palavras é vivido como um mal-estar corporal. Pai para a mãe: “Eu sempre lhe disse que a menina servia para você se afastar de mim (para evitar as relações sexuais).

A doença, nesses casos, parece sempre uma garantia para a mãe contra a sua angústia, os seus conflitos. O sintoma de uma criança mascara a angústia da mãe. A principal preocupação desta torna-se o combate do sintoma. Este serve muitas vezes para a mãe eximir-se às solicitações do mundo exterior (a fragilidade da criança é invocada para não viajar, não sair, não trabalhar). Esse mecanismo na relação mãe-filho precisa ser visto a tempo porque é inconsciente e fixa a criança nesse papel e a estrutura numa neurose.

A doença da criança serve ao equilíbrio da mãe. Mãe e criança têm, no plano inconsciente, quase que um só e mesmo corpo. O sintoma da criança é um eco à angústia materna.

O pai precisa entrar nessa relação tão primitiva mãe-filho, como o representante da Lei, do social, para ajudar essa criança a se estruturar. Assim, o filho pode ter desejos externos à mãe, e a mãe preocupações outras que não só o filho.

É decifrando o segredo incluído no sintoma que permitimos a uma criança exprimir-se numa linguagem diferente da do corpo, dos sintomas escolares e dos distúrbios de comportamento.

¹ Richter, Horst E. – A família como paciente, Ed. Martins Fontes, São Paulo, 2ª. Edição, 1990.

² Citação do Dr. Paulo Gaudencio

Bibliografia:

Mannoni, Maud – A primeira entrevista em Psicanálise, 7ª. Edição, Ed. Campus, Rio de Janeiro, 1981.

Richter, Horst E. – A família como paciente, Ed. Martins Fontes, São Paulo, 2ª. Edição, 1990.

Soifer, Raquel – Psicodinamismos da família com crianças, Ed. Vozes, 2ª. Edição, Rio de Janeiro, 1982.

Ackerman, Nathan W. – Diagnóstico e tratamento das relações familiares, Ed. Artes Médicas, Porto Alegre, 1986.

Dolto, Françoise – Dialogando sobre crianças e adolescentes, Papirus Ed., Campinas, 1987.